Morre Luís Leite Santana, ex-presidente da Câmara de São Sebastião

Com imensa tristeza que a Câmara de São Sebastião comunica o falecimento do ex-presidente Luis Leite Santana, conhecido por Zangado, aos 87 anos.

Zangado esteve à frente do Poder Legislativo no biênio no biênio 1989/1990, quando foi elaborada a 1ª Lei Orgânica do município, considerada a Constituição Municipal. 

Homem bom, íntegro, trabalhador, de família tradicional, dono de uma memória privilegiada, Zangado deixa um legado de amor à nossa terra. O corpo do ex-presidente será velado nesta sexta-feira, a partir das 8h00, no Velório Municipal. O sepultamento ocorrerá às 15h00.

Nascido em 23/07/1935, em Ilhabela, o ex- presidente era filho de Joaquim Roque Santana, da tradicional família Correa Santana, e de Maria leite do Nascimento, que era chamada de ?Maria Leite Santana?.

“O meu pai não teve o sobrenome Correa porque o meu avô decidiu colocar no lugar o sobrenome Roque e ficou ?Joaquim Roque Santana”. Era o hábito na Ilhabela quando a criança nascia colocar o sobrenome ou o nome do santo e o meu pai nasceu no dia de São Roque”, explicou durante a entrevista que concedeu ao Arquivo Público da Câmara.

O pai do ex- presidente da Câmara, Luis Leite Zangado, era comerciante de secos e molhados na Praia Grande, em Ilhabela. O comércio funcionava na parte de baixo de um sobrado, enquanto a família residia no andar de cima. Os três primeiros filhos do casal Joaquim e Maria nasceram neste local: Lídio Leite Santana, Laurita e Laurides.

“Em solidariedade ao meu avô que o convidou para plantar bananas no Portinho, meu pai deixou o comércio na Praia grande, no entanto, uma praga destruiu o bananal e ele perdeu tudo”, contou.

Neste período, no bairro do Portinho, nasceram outros três filhos do casal: Lauro, Laura e Luci. “O meu pai ficou totalmente descapitalizado e decidiu aceitar o convite de um *Gaia, amigo dele, para administrar a Fazenda Rodamonte que ficava depois da Ponta da Sela, antes do Burrifo, um lugar horrível, de difícil acesso e o maior foco de malária em Ilhabela”, explicou Zangado.

Após tomar a decisão, seu Joaquim resolveu não levar os três filhos mais velhos, assim, Lídio foi morar em São Sebastião para continuar os estudos no Grupo Escolar, uma filha ficou sob os cuidados do avô materno, Benedito Leite Julião, que era seu padrinho, e outra filha se mudou para Santos. Já os três filhos mais novos seguiram junto com os pais para a Fazenda Rodamonte.

Fazenda Rodamonte – “Um belo dia, meu pai reuniu os trabalhadores da Fazenda e um deles se levantou e disse que não podiam trabalhar porque era um dia santo. O meu pai aceitou, apesar de não ter gostado muito da proposta”, disse. Como naquele dia teria folga do trabalho, Zangado conta que o seu tio decidiu pegar uma lata de pólvora para fazer bombinha e divertir as crianças.

“Na hora do café, o meu tio recolheu a pólvora e foi para a cozinha tomar café, nisso passou um homem (passante) e pediu para o meu irmão Lauro um tição para acender o pito dele. Com o tição, o Lauro chamou as meninas e foram para o quarto onde estava a lata de pólvora fazer o que o tio fez, 24 horas depois saiu da Fazenda Rodamonte uma canoa de voga com três caixões. O Lauro com 6 anos, a Laura com 4 anos e a minha irmã mais nova 1 ano e meio”.

A morte dos três irmãos foi uma tragédia na época. O pai do ex- presidente Zangado entrou numa fase de depressão muito profunda.

Um ano depois da tragédia, nasceu o ex- presidente Zangado, às 5 horas, à beira da cachoeira do Rodamonte. “Com 1 ano e meio, eu fui picado por um pernilongo da malária. Isso era morte certa na época. Meus pais ainda estavam se recuperando e o médico Dr. Coimbra deu o veredicto: – Vocês tem que mudar para Santos ou São Paulo se quiserem salvar o seu filho”.

“Passei a minha primeira infância com malária todos os dias”, recordou.

A família se mudou para Santos, onde permaneceu por 6 anos antes de retornar para o Portinho, em Ilhabela. No Portinho, o pai do ex- presidente abriu uma Padaria e uma Olaria. “Ele tinha uma visão mais ampla do que aquele caiçara que ficava na lavoura de subsistência. ?Os anos mais felizes da minha vida foram no Portinho. Eu era solto”, concluiu.

A Travessia do Canal

A família do ex- presidente Zangado mudou- se para São Sebastião, vinda de Ilhabela, quando ele tinha por volta de 9 a 10 anos de idade. Era fevereiro de 1946, o ex- presidente se recordou que estava ocorrendo obra no Porto, com guindastes imensos.

Não só a família do ex- presidente estava passando por mudanças, isso também acontecia na política nacional. Após 15 anos, encerrava- se o período conhecido por Estado Novo, com a deposição de Getúlio Vargas pelas forças militares e a eleição que levou ao poder o marechal Eurico Gaspar Dutra. Em São Sebastião, o povo havia elegido o prefeito Mário Leite.

O último prefeito antes dele, Armando Datino, havia sido indicado pelos interventores. A cidade de São Sebastião se resumia a quatro ruas: Rua da Praia, Rua da Câmara, Rua Expedicionários Brasileiros e a Rua do Hospital. Dali pra frente era fazenda de gado e charco.

“Onde era o Lima Magazine tinha uma porteira e dali para frente era fazenda da família Tavolaro. O último dono foi Severiano Tavolaro, na época dele era uma fazendo de gado. A gente conhecia todo mundo”, lembrou o ex- presidente.

Recomeço – A primeira casa da família do ex- presidente Zangado, em São Sebastião, ficava localizada na esquina da rua onde funciona o Detran. “Na casa da esquina, com terreno muito grande, meu pai colocava lenha para rachar. Era pertinho da praia”.

Aos 52 anos, o pai do ex- presidente, seu Joaquim Roque Santana, começou o negócio de rachar lenha, abriu uma quitanda e depois uma loja na Rua Expedicionários Brasileiros. “A Ilha era dependente de São Sebastião, tudo acontecia aqui. Para você ter uma idéia, o seu Valentim Chagas que foi um comerciante forte aqui na época era caiçara de Ilhabela, de São Pedro. O meu pai é da mesma época que a dele. Tudo acontecia aqui. Tudo aqui desenvolvia”.

 Com a mudança da família para São Sebastião, o ex- presidente que devia entrar para o 3º ano do Grupo Escolar Henrique Botelho precisou repetir o 2º ano. Era costume da época, o aluno voltar um ano quando vinha de uma escola isolada. “Eu fiquei doido da vida”, contou.

“A professora Irene foi à razão do meu apelido Zangado. Eu tinha vindo da Ilha e era vítima de bullying ? Ilhéu pra lá e pra cá. Imagina como eu briguei. Briguei muito”.

Zangado contou que um dia estava copiando a lição e quebrou a ponta do seu único lápis, levantou e pediu autorização para apontar no cesto, mas a professora disse não. “O Decinho, que estudava na carteira ao meu lado, pediu para ir apontar o lápis e ela deixou. Eu fiquei louco, sempre digo que foi a primeira contestação política que eu fiz na vida”.

– Professora eu quero saber por que eu não pude e ele pode? A professora respondeu: – Menino você é tão chato, mas tão chato, que é pior do que o Zangado dos sete anões.

“Ela não me apelidou, eu me apelidei. Como ninguém sabia meu nome, me chamavam de Zangado e eu aceitei. Depois de anos, dei um abraço nela e agradeci pelo apelido porque foi muito fácil fazer campanha para vereador”.

Juventude – Após terminar a 4ª série no Colégio Henrique Botelho, o ex- presidente Zangado passou a vender bananas e a cortar lenhas para ajudar o pai. Em 1950, com o lançamento do filme “Caiçara”, no Festival de Cannes, um grande número de turistas passou a querer conhecer a Pedra do Sino, em Ilhabela. Para atender essa demanda, foi criado na “Praia da Frente”, na Rua da Praia, um local de embarque em canoas a motor.

“Eu trabalhei na Ritinha e na Monte Sião, o Nilo Borracheiro era o meu chefe. Eu tinha 15 anos e comecei a ser marinheiro e guia turístico. Cada viagem eu ganhava 20 cruzeiros”, lembrou.

Nesta época, o ex- presidente conta que começou a pensar em ir embora da cidade e pensou em ingressar na Marinha do Brasil,  mas o seu pai não autorizou porque tinha sido aberto o Ginásio de Caraguatatuba. Em 1952, ele fez a prova de admissão para entrar no Ginásio em Caraguatatuba.

“Eu tinha uma boa base, sempre fui muito bom em matemática, não que eu gostasse, mas tinha facilidade. Há 3 ou 4 anos que eu tinha terminado o primário, mas passei no ginásio e o meu pai ficou alegre”, recordou.

Em 1954, no governo do ex- prefeito Jaime Scaramelli, foi criado o 1º Ginásio de São Sebastião. “Nós queríamos o nosso ginásio de São Sebastião e éramos os agitadores. Nós fizemos um mutirão, eu trabalhei de servente de pedreiro. A Prefeitura era pobre e os alunos tiveram que ajudar a reformar o prédio. Montaram o corpo docente aqui e ali. Fui da primeira turma que veio de Caraguá para São Sebastião. Eu tinha 18 anos”.

Golpe Militar – Na década de 60, o ex-presidente morava em Santos e trabalhava como sub- contador de uma empresa, quando decidiu voltar para São Sebastião para trabalhar na Petrobras. Cerca de três anos depois, estourou o Golpe Militar, na madrugado do dia 31 de março de 1964. 

Antes do Golpe, Zangado tinha participado de uma chapa do sindicato dos petroleiros que havia sido derrotada na eleição. “Perdi. Graças a Deus! Todos aqueles caras da chapa vencedora sumiram de madrugada, foram levados pela polícia marítima. Depois de 15 dias, foram localizados em Santos e retornam para cidade”. 

No início da abertura política, junto com uma comitiva viajou até Brasília para apresentar ao chefe de gabinete do presidente da república, General João Figueiredo, uma lista com nomes de 12 pretendentes ao cargo de prefeito. Nesta lista, entre outros, estavam os nomes de Henderson Alves das Chagas (Decinho), Comandante Herman, Mário de Oliveira e Décio Moreira Galvão.

“Estavam lá o seu (Machado) Rosa, Vilson Costa, eu, nós não éramos candidatos, mas fomos. “A partir daí, cada um ficou por conta. O meu candidato era o Decinho (Henderson Alves das Chagas), mas aí escolheram o Décio Moreira Galvão, que ficou 7 anos no poder?. 

Na década de 80, O PMDB tinha uma liderança forte em São Sebastião, composta pelo ex- presidente Luiz Leite Santana, o Zangado, Dr. Íris Rezende (ex- vereador), Dr. João Siqueira (ex- prefeito), o advogado Dr. Paulo Guimarães e outros. Durante o período que antecedeu a abertura política, em São Sebastião a eleição para prefeito ocorreu de forma tardia.

1ª Eleição Direta – Durante o mandato tampão do prefeito Paulo Julião, o PMDB continuou crescendo com a chegada de novos filiados, fazia reuniões às quintas- feiras e era um partido muito ativo. “Eu cheguei a filiar 550 nomes, fui o maior filiador do PMDB e era o mais indicado pelo povo para ser o candidato a prefeito”, explicou.

Na disputa por quem sairia candidato a prefeito pelo PMDB, Zangado perdeu para Luís Rogério por apenas um voto. “A rua da Câmara estava lotada de gente, com caixas de rojão para soltar quando fosse feita minha homologação. No final, foi um silêncio sepulcral”, recordou.

Fundação do PSB – O ex- presidente contou que, apesar de ter se filiado ao PMDB, seu partido do coração sempre foi o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e decidiu fundar o partido na cidade.

“Com o PSB nas mãos, eu era uma espécie de candidato único a prefeito para a próxima eleição, o Luizinho era o presidente do partido e nós conseguimos juntar a grande liderança autêntica”. No entanto, para evitar um novo racha no partido, como o que havia ocorrido com o PMDB, Zangado afirma que abriu mão da candidatura a prefeito para apoiar Paulo Julião.

Vereador – Na eleição de 1988, o ex- presidente foi eleito vereador e assumiu a presidência no biênio 1989/1990. Zangado não planejava ser o presidente e fez campanha para o vereador João Siqueira, que mais tarde veio a ser o prefeito da cidade.

Durante o seu mandato, foi elaborada a 1ª Lei Orgânica do município, que passou a ser obrigatória após a Constituição de 1988. Depois da presidência, o ex-presidência assumiu por duas o cargo de secretária municipal da Fazenda e, em 2000, retornou à Câmara como vereador suplente.

“A vida me ensinou que estamos no cargo de comando, mas não somos melhores do que ninguém. Somos companheiros da equipe. Sempre fui exigente, mas não pisava em cima de ninguém. Nunca tive essa imponência”, diz.